11.11.09

Detrito

«
Não posso voltar abrir o meu peito...

É necessário que o feche,
que o encerre para sempre num poço profundo,
que o tape com muita terra,
ervas e arbustos,
para que ninguém o encontre,
para que se confunda com a solidão,
as plantas,
a humidade e o gelo das manhãs frias...

Não posso voltar a deixar
que ele pronuncie uma palavra que seja,
que te abra a porta dos meus sonhos
e te deixe entrar como uma brisa,
que permita o teu sopro dentro de mim,
ou que te embale com as minhas canções de palhaço pobre...

Não posso oferecer-te de novo,
sem receios,
o que de mais puro há em mim...
para que tu o consumas alarvemente,
e despejes o que sobra,
como sobra,
num canto qualquer desta cidade imunda...
Mero detrito sem importância...


Não posso querer-te como quero,
tão despreocupadamente,
tão louca, estupida, infantil e 'deliciosamente',
ao ponto de sombrear a tua indiferença
com cores berrantes e caras,
para que me iluda mais um dia,
mais um pouco...

Não posso dar-te o meu sangue...
Ferve demasiado pelo teu toque,
lascivo, demente...
E não posso dar-te mais de mim,
porque me perco uma e outra vez,
a cada dádiva,
a cada passo,
a cada abraço,

Não posso.
Não posso,

... não posso!
»

4.11.09

"Lembra-me um Sonho lindo... Quase acabado"

É um dos poemas mais sensuais que já li. Tão simples, tão puro, tão carnal e tão terreno, apesar da sua quase que pueril simplicidade.
A fome de alguém por outro alguém... A prisão e extase da emoção de um toque, um respirar profundo...
Com todo o seu mau feitio, que é bem do conhecimento público, Fausto Bordalo Dias (o cantor maldito) teve o descernimento perfeito para, num rasgo de genialidade, cravar na roda do tempo uma das mais perfeitas leituras, na minha opinião, sobre a paixão e desejo puros...
«Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado
Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada
Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas
Afoga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso
Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado
Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada
Ai como eu te quero,
ai de madrugada,
ai alma da terra,
ai linda,
assim deitada
Ai como eu te amo,
ai tão sossegada,
ai beijo-te o corpo,
ai seara,
tão desejada »
Se não corelacionam as palavras ao tema, eu dou uma ajuda:

3.11.09

Sublime!

É bem possível que já tenha postado, algures no passado, esta canção aqui, neste meu pequeno "quarto" virtual... Mas como o que me toca cá dentro nunca me cansa, aqui está:



Será preciso dizer mais?